| Reino: | Animalia |
| Filo: | Chordata |
| Classe: | Aves |
| Ordem: | Tinamiformes |
| Família: | Tinamidae |
| Gray, 1840 | |
| Espécie: | C. noctivagus |
O jaó-do-litoral (Crypturellus noctivagus), denominação mais adequada, pois sua área de ocorrência acompanha a faixa litorânea do Sudeste e também do Sul do Brasil, incluindo o extremo sul da Bahia, é uma ave Tinamiforme, que ocorre entre 0 e 400 m de altitude. Seu habitat típico são as florestas altas de restinga em estado primário, na planície litorânea e estendendo-se às florestas de encostas serranas e de vales de rios, dentro dessa faixa aproximada de altitude. É conhecido também por: jaó-do-sul, jaó-da-mata, juó ou juô.
Sua classificação pode ter origem no fato dessa espécie vocalizar muito à noite, no período de reprodução.
Seu nome científico significa: do (grego) kruptus = escondido, oculto; e oura = cauda; crypturellus = diminutivo de crypturus; e do (latim) nox, noctis = noite; e de vagus = que vaga, que caminha; noctivagus = que vaga pela noite, notívago. ⇒ Pequeno Crypturus notívugo ou pequena (ave) da noite com cauda escondida.
Mede entre 32 a 37 centímetros. As linhas horizontais vermelho acobreado no dorso inferior, o tom marom ferrugem do ventre e garganta, e a tonalidade corporal cinza-azulado são colorações típicas do jaó do litoral; as quais tendem a tonalidades de marrom variáveis, e coloração geral mais clara e manchada na subespécie nordestina (Crypturellus n. zabele).
Vocaliza com frequência antes do começo da primavera (início de agosto) e até antes de finalizar o verão (começo de fevereiro). Sua vocalização padrão consiste numa sequência de 4 notas, sendo a primeira alongada e descendente, e as seguintes curtas e lineares, a abertura do bico é bem pequena, apenas fazem o ar sair e passar de volta pelo bico semi-aberto alongando e engrossando o pescoço. Emite também um único pio curto e agudo, como advertência ou desafio à outros machos da espécie.
Quando os machos estão cuidando dos filhotes ,emitem um pio curto e baixo como forma de chamado e localização! Seu piado é ressoante e pode ser ouvido à distância, e no período da reprodução piam inclusive noite adentro. Diferentemente dos machos, as fêmeas da espécie piam baixo e de forma variada, normalmente ao amanhecer e no crepúsculo. Apresentam as fêmeas, mínimas diferenças no colorido da plumagem, sendo esse em geral um pouco mais claro. O bico dos machos é em geral, ligeiramente maior e pouco mais arqueado que o das fêmeas.
O desmatamento, caça e a ocupação imobiliária de suas áreas de ocorrência natural têm contribuído para ameaçá-lo, ocorrendo mesmo extinções locais. É espécie cinegética.
Não possui subespécies, de acordo com Pacheco et al. (2021).
Muitos estudiosos consideraram um erro crasso, a invalidação da até então subespecie nordestina C. n. zabele, como detalhamos anteriormente aqui. Erro que foi corrigido recentemente, com a elevação da forma nordestina, ao status de espécie separada, o Crypturellus zabele.
As evidentes diferenças de coloração geral entre as duas formas, do canto, do formato dos ovos, da cor das patas, sendo amarela para n. zabele e olivacea para n.noctivagus deixavam claro esse equívoco técnico.
A forma zabele evoluiu no ensolarado habitat da caatinga arenosa, veredas, matas abertas do norte de MG ao Nordeste, onde as suas tonalidades mais claras e manchadas, o camuflam melhor,levando-a à especiação com o tempo.
A vocalização de noctivagus é mais longa e alta que a de zabele, como estratégia evolutiva para maior alcance, vencendo a densa barreira da floresta atlântica onde evoluiu.
Uma estratégia também usada por outros tinamideos florestais, como os da Amazônia.
Alimenta-se principalmente de sementes, pequenos frutos de palmeiras, como Euterpe oleracea, e também os das plantas: tapiá, oiticica, curubixá, cupá; bem como insetos, vermes, aranhas, moluscos e ainda vegetais de folhas tenras, como certas gramíneas e também boa quantidade de grãos de areia. No Rio Grande do Sul um espécime de C. n. noctivagus apresentou em seu conteúdo estomacal itens alimentares de Myrcianthes gigantea (araçazeiro-do-mato), Nectandra megapotamica (canela-preta), Lepidoptera (Saturniidae) e fragmentos de Coleoptera.
Uma característica na reprodução dessa espécie é a da formação de haréns de fêmeas no período de acasalamento (a exemplo de C. strigulosus), que se reúnem a um macho solitário e dominante. Este fator contribui para resultados normalmente escassos obtidos em sua reprodução em cativeiros conservacionistas, em não se dispondo de uma proporção adequada entre os sexos. O período do acasalamento ocorre de setembro a janeiro, quando então podem ser ouvidas as vocalizações dos machos.
Além dessas vocalizações, ocorre também um display de acasalamento onde o macho se aproxima da fêmea em postura ereta, com leve agito das asas e em seguida corre, fugindo dela por uns 2 metros com as asas meio erguidas, cabeça baixa e penas traseiras eriçadas. Ele para, volta-se de frente para ela e reinicia a aproximação lentamente. Ao aceitá-lo, ela fica em posição ereta e tremula as asas, agachando-se rente ao solo. O macho então sobe sobre ela, pisando-a e em seguida copula. No período de acasalamento, os machos adquirem um matiz rosado em sua plumagem.
O ninho é simples, apenas um ajuntamento de folhas secas sobre um leve rebaixo do solo. É geralmente construído aos pés ou entre as raízes tabulares de árvores como as sapopembas, guapuruvus ou moitas como as de gravatás, como exemplos. Sua postura é de 2 a 3 ovos de coloração verde ou azul-clara, incubados por 18 dias em média. Por vezes, várias fêmeas fazem suas posturas num mesmo ninho. A incubação é feita pelo macho, que cobre os ovos com folhas secas ao sair do ninho, ocultando-os. Também é o macho que cria e protege os filhotes.
Segundo relatos abalizados, essa espécie apresenta distribuição esparsa e irregular em seu habitat, na floresta atlântica primária; e dentro dele, suas áreas de maior ocorrência pontual seriam nas proximidades de leitos secos de lagoas, recobertos por vegetação rasteira entremeada por gramíneas. Tem relativa tolerância às alterações antrópicas, sendo observada a sua ocorrência em pequenas áreas de floresta primária, circundadas por pastos e plantações. – Marcos Massarioli 2011.
Sua distribuição geográfica abrange os estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.